Estresse Ocupacional na Enfermagem de UPA: o que a ciência revela sobre causas, sintomas e prevenção
Trabalhar em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) exige agilidade, sangue-frio e resistência emocional o tempo todo. Mas até que ponto essa rotina intensa está adoecendo os profissionais de enfermagem?
Um estudo qualitativo realizado em uma UPA do interior da Bahia, publicado na Revista Saúde.Com (2023), traz números que preocupam: 100% dos entrevistados relataram fadiga frequente e a maioria da equipe apresenta níveis de estresse intenso a muito intenso.
Neste artigo, você vai entender — com base em evidências científicas — quais são as principais fontes de estresse ocupacional na enfermagem, os sintomas mais comuns e o que gestores e profissionais podem fazer para reverter esse cenário.
O que o estudo investigou
A pesquisa ouviu 14 profissionais de enfermagem (oito enfermeiros e seis técnicos) atuantes no setor de urgência e emergência de uma UPA, todos com mais de seis meses de atuação no serviço. Por meio de entrevistas semiestruturadas e da técnica de análise de conteúdo de Bardin, os pesquisadores identificaram quatro grandes eixos: fontes de tensão no trabalho, mecanismos regulatórios, sinais e sintomas de estresse e indicadores de impacto na assistência prestada.
O perfil da equipe reforça um retrato conhecido da enfermagem brasileira: predominância feminina, boa parte solteira e com mais de quatro anos de atuação na mesma unidade — tempo suficiente para que os efeitos do desgaste emocional se acumulem.
As 4 principais fontes de estresse identificadas
De acordo com os relatos analisados, quatro fatores se destacaram como os grandes gatilhos de estresse na rotina da enfermagem em urgência e emergência:
1. Insegurança e falta de policiamento (90% dos relatos)
A ausência de segurança pública nas proximidades da unidade — muitas vezes localizada em áreas afastadas do centro urbano — foi apontada como uma das maiores causas de ansiedade entre os profissionais, que relataram episódios de furto e sensação constante de vulnerabilidade durante os plantões noturnos.
2. Conflitos na triagem com acompanhantes (80%)
A falta de compreensão do público sobre o Protocolo de Manchester — que classifica o atendimento por gravidade clínica, e não por ordem de chegada — gera atritos frequentes, agressividade verbal e desgaste emocional para quem está na linha de frente do acolhimento.
3. Conflitos entre colegas de equipe (50%)
Divergências hierárquicas, sobrecarga individual em procedimentos e falta de cooperação entre colegas também aparecem como fontes relevantes de tensão no ambiente de trabalho.
4. Sobrecarga de tarefas (100%)
Este foi o fator unânime entre os entrevistados: acúmulo de funções assistenciais e gerenciais, resolução de pendências fora do horário de plantão e ausência de suporte adequado da equipe.
Sintomas mais frequentes relatados pela equipe de enfermagem
O estresse ocupacional não fica restrito ao ambiente de trabalho — ele se manifesta no corpo e na mente. Os sintomas mais citados pelos profissionais entrevistados foram:
- Fadiga/exaustão física e mental — presente em 100% dos relatos, associada a distúrbios do sono e podendo evoluir para Síndrome de Burnout;
- Irritabilidade — relatada por 90% da equipe;
- Dores musculares e cefaleias — citadas por metade dos participantes, ligadas à tensão muscular crônica;
- Ansiedade — presente em 30% dos casos;
- Distúrbios gastrointestinais — relatados por uma parcela menor (2%), mas ainda assim relevante do ponto de vista clínico.
Chama atenção que apenas 7% dos profissionais afirmaram não sentir nenhum sintoma relacionado ao estresse — um indicador de que a exposição a esses fatores é praticamente generalizada dentro da unidade estudada.
Estresse muito intenso: um alerta que não pode ser ignorado
Ao avaliar o nível de estresse por frequência de sintomas, os pesquisadores encontraram um dado impactante: 93% dos profissionais foram classificados com estresse muito intenso. Esse resultado reforça que o desgaste na enfermagem de urgência não é pontual, mas sim um padrão estrutural do setor — com potencial de comprometer tanto a saúde do trabalhador quanto a segurança e a qualidade da assistência prestada ao paciente.
Como os profissionais lidam com o estresse no dia a dia
Apesar do cenário desafiador, o estudo também identificou estratégias que a equipe usa para amenizar os efeitos do desgaste emocional. A prática regular de atividade física — caminhada, musculação, pilates ou ciclismo — foi citada por cerca de 90% dos entrevistados como principal válvula de escape, contribuindo para o equilíbrio físico e psicológico. Momentos de lazer com amigos e família também foram mencionados como formas eficazes de desconectar da rotina de plantões.
O que gestores de saúde podem fazer para reduzir o estresse na enfermagem
Com base nas conclusões dos pesquisadores, algumas medidas se mostram prioritárias para unidades de pronto atendimento que desejam proteger a saúde mental da sua equipe:
- Reforçar a segurança da unidade, com policiamento ou escolta nos horários de maior risco;
- Ampliar o quadro de profissionais, reduzindo a sobrecarga individual de tarefas;
- Investir em educação em saúde para o público, esclarecendo o funcionamento do Protocolo de Manchester e reduzindo conflitos na triagem;
- Criar espaços de escuta e mediação de conflitos entre a equipe;
- Incentivar programas institucionais de bem-estar, incluindo apoio psicológico e incentivo à prática de exercícios físicos.
Perguntas frequentes sobre estresse ocupacional na enfermagem
O que é estresse ocupacional na enfermagem? É o desgaste físico e emocional resultante das pressões inerentes à rotina de trabalho da equipe de enfermagem, especialmente em setores de alta demanda como urgência e emergência.
Quais são os principais sintomas de estresse em profissionais de UPA? Fadiga, irritabilidade, dores musculares, ansiedade e, em casos mais avançados, Síndrome de Burnout.
O estresse da enfermagem afeta a qualidade do atendimento ao paciente? Sim. O estudo aponta que o desgaste acumulado impacta diretamente a assistência prestada, aumentando o risco de erros e reduzindo a qualidade do cuidado oferecido à população.
Conclusão
O estudo conduzido em uma UPA de Senhor do Bonfim (BA) confirma o que muitos profissionais de enfermagem vivenciam diariamente: a linha de frente da urgência e emergência é também uma das áreas mais expostas ao estresse ocupacional dentro da saúde pública. Reconhecer as fontes desse desgaste é o primeiro passo para que gestores e instituições implementem medidas concretas de proteção à saúde do trabalhador — garantindo, ao mesmo tempo, um atendimento mais seguro e humanizado para quem mais precisa.
Fonte: Nascimento, A. T. P.; Grassi, J. F. Análise do estresse ocupacional da enfermagem na Unidade de Pronto Atendimento – UPA, no município de Senhor do Bonfim/BA. Rev. Saúde.Com, 2023; 19(3): 3476-3484. DOI 10.22481/rsc.v19i3.12229.

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