A identificação precoce, a monitorização contínua e o suporte respiratório adequado podem fazer a diferença na evolução do paciente em situação de urgência.
A insuficiência respiratória é uma condição de elevada gravidade e representa um dos cenários que mais exigem rapidez, organização e capacidade de avaliação da equipe de saúde. Em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), onde pacientes com diferentes níveis de gravidade são atendidos simultaneamente, reconhecer rapidamente os sinais de deterioração respiratória é fundamental.
Um estudo publicado em 2026 na RECIMA21 investigou justamente essa realidade: como enfermeiros que atuam em uma UPA lidam com pacientes com insuficiência respiratória, quais intervenções são mais utilizadas e quais dificuldades interferem na assistência.
O que o estudo encontrou?
A pesquisa foi realizada em uma UPA de Aracati, no Ceará, durante 2025. Participaram oito enfermeiros com experiência profissional na unidade. A partir das entrevistas, os pesquisadores identificaram seis categorias principais relacionadas ao cuidado do paciente com insuficiência respiratória:
Práticas imediatas;
Identificação precoce e avaliação clínica;
Monitoramento contínuo;
Intervenções terapêuticas;
Desafios estruturais e sobrecarga profissional;
Atendimento humanizado.
Essas categorias mostram que o manejo da insuficiência respiratória vai muito além da simples oferta de oxigênio. Ele envolve avaliação clínica, vigilância constante, suporte respiratório, comunicação e atuação integrada da equipe.
1. A primeira prioridade: reconhecer a gravidade
Diante de um paciente com suspeita de insuficiência respiratória, a avaliação inicial precisa ser rápida e sistemática.
Os enfermeiros entrevistados destacaram como medidas iniciais a verificação dos sinais vitais e a oferta de suporte ventilatório por meio da oxigenoterapia, conforme a necessidade clínica.
Entretanto, um dos pontos mais importantes levantados pelo estudo é que não se deve avaliar o paciente apenas pelo número apresentado no oxímetro.
O profissional deve observar o paciente como um todo:
frequência respiratória;
padrão respiratório;
presença de esforço respiratório;
uso de musculatura acessória;
nível de oxigenação;
ausculta pulmonar;
estado geral e evolução clínica.
Essa avaliação permite reconhecer sinais de deterioração antes que o quadro se torne ainda mais grave.
Saturação normal significa que o paciente está bem?
Não necessariamente.
Esse é um ponto especialmente importante na prática da emergência.
A saturação periférica de oxigênio é uma informação essencial, mas deve ser interpretada dentro do contexto clínico. Um paciente pode apresentar alterações importantes do trabalho respiratório, fadiga, alteração do nível de consciência ou piora do padrão ventilatório mesmo antes de ocorrer uma queda acentuada da saturação.
Por isso, como destaca o estudo, olhar para o paciente é tão importante quanto olhar para o monitor.
2. Monitorização contínua: não basta avaliar uma única vez
Na insuficiência respiratória, o quadro clínico pode mudar rapidamente.
Por isso, os participantes enfatizaram a importância do acompanhamento contínuo de parâmetros como:
frequência respiratória;
saturação de oxigênio;
frequência cardíaca;
pressão arterial;
temperatura.
Entre esses parâmetros, o padrão respiratório foi destacado pelos profissionais como um importante indicador de melhora ou deterioração.
Na prática, isso significa que a pergunta não deve ser apenas:
“Como o paciente está agora?”
Mas também:
“Ele está melhorando, mantendo ou piorando?”
A tendência dos parâmetros ao longo do tempo pode ser tão importante quanto um valor isolado.
3. Quais intervenções aparecem com maior frequência?
Entre as intervenções relatadas pelos enfermeiros estão:
Oxigenoterapia, posicionamento, aspiração de vias aéreas e suporte ventilatório não invasivo (VNI).
O posicionamento em Fowler ou semi-Fowler, por exemplo, foi citado juntamente com monitorização, oxigenoterapia e aspiração de vias aéreas.
O estudo também aborda a utilização de dispositivos de suporte respiratório, incluindo a cânula nasal de alto fluxo e a VNI, ressaltando a necessidade de capacitação dos profissionais para utilização segura desses recursos.
Mas atenção: suporte respiratório não significa simplesmente “colocar oxigênio”
A escolha do suporte deve estar relacionada ao quadro clínico e à resposta do paciente.
Um paciente com hipoxemia, por exemplo, pode necessitar de estratégias diferentes daquele que apresenta importante aumento do trabalho respiratório, hipercapnia ou falência ventilatória.
Por isso, oxigenoterapia, alto fluxo, VNI e ventilação invasiva não devem ser encarados como etapas automáticas, mas como ferramentas que precisam ser utilizadas de acordo com a condição clínica e os protocolos institucionais.
4. O papel da enfermagem não termina no suporte respiratório
Em situações de maior gravidade, pode ser necessária a ventilação mecânica e até a intubação orotraqueal.
O artigo destaca que a intubação orotraqueal é um procedimento de competência médica, mas exige atuação integrada da equipe multiprofissional. Nesse contexto, a enfermagem possui papel fundamental na manutenção do dispositivo, monitorização e segurança do paciente.
Isso reforça uma característica fundamental da emergência:
o cuidado do paciente crítico é multiprofissional.
A qualidade da assistência depende da comunicação e da coordenação entre enfermagem, medicina, fisioterapia e demais profissionais envolvidos no atendimento.
5. Um problema que não aparece no monitor: a sobrecarga da equipe
Um dos achados mais relevantes do estudo foi a identificação de problemas estruturais.
Os enfermeiros relataram escassez de equipamentos, número reduzido de profissionais e sobrecarga física e emocional.
Essa questão merece atenção porque a assistência ao paciente respiratório grave exige vigilância constante.
Quando poucos profissionais precisam cuidar simultaneamente de vários pacientes graves, aumenta a dificuldade de manter uma monitorização adequada e realizar todas as intervenções necessárias no tempo oportuno.
O estudo relaciona a sobrecarga profissional a riscos como atraso de terapias, redução da vigilância clínica e maior ocorrência de complicações.
Portanto, falar em segurança do paciente também significa falar em:
dimensionamento adequado + equipamentos disponíveis + capacitação + organização do serviço.
6. Humanização também é parte do atendimento ao paciente respiratório
Em meio a monitores, dispositivos, oxigênio e protocolos, existe um elemento que não pode ser esquecido: o paciente.
Os enfermeiros entrevistados destacaram empatia, comunicação, trabalho em equipe e visão holística como competências importantes para o atendimento. Uma das ideias centrais relatadas foi:
“Ver o paciente como pessoa, não apenas como doença.”
Um paciente com dificuldade para respirar frequentemente apresenta medo, ansiedade e sensação de ameaça.
Por isso, explicar o que está acontecendo, transmitir segurança e estabelecer uma comunicação clara também fazem parte do cuidado.
A tecnologia ajuda a tratar a insuficiência respiratória.
A comunicação ajuda a cuidar da pessoa que está vivendo essa insuficiência respiratória.
O que esse estudo ensina para quem trabalha em UPA?
Os resultados permitem organizar alguns pontos fundamentais para a prática:
1. Observe antes de interpretar apenas números
A saturação é importante, mas deve ser analisada junto ao padrão respiratório e ao estado clínico.
2. Procure sinais de esforço respiratório
Uso de musculatura acessória, alterações do padrão respiratório e sinais de fadiga devem chamar atenção.
3. Monitore a tendência
Uma avaliação isolada pode não mostrar a evolução real. O acompanhamento contínuo permite identificar melhora ou deterioração.
4. Utilize o suporte respiratório de maneira criteriosa
Oxigenoterapia, alto fluxo e VNI são ferramentas importantes, mas precisam ser empregados conforme a condição clínica, contraindicações e protocolos.
5. Trabalhe em equipe
O paciente grave exige integração entre os profissionais e comunicação eficiente.
6. Não abandone a humanização
Mesmo em situações de emergência, o paciente continua sendo uma pessoa — não apenas uma saturação, uma frequência respiratória ou um diagnóstico.
Conclusão
O estudo evidencia que o manejo da insuficiência respiratória na UPA depende de uma combinação entre avaliação clínica precoce, monitorização contínua, intervenções terapêuticas adequadas, capacitação profissional e cuidado humanizado.
Ao mesmo tempo, chama atenção para um problema que muitas vezes fica escondido: não basta possuir protocolos se a equipe não dispõe de profissionais e recursos suficientes para executá-los com segurança.
Para quem trabalha na urgência, talvez a principal mensagem seja simples:
na insuficiência respiratória, tempo importa — mas qualidade da avaliação também.
Reconhecer precocemente a deterioração, monitorar a resposta às intervenções e saber quando o paciente está deixando de responder ao suporte inicial são competências fundamentais para a segurança do atendimento.
E, acima de tudo, o paciente deve ser visto em sua totalidade: avaliado com técnica, monitorado com atenção e cuidado com humanidade.
Fonte
OLIVEIRA, Iranildo Lopes de et al. Manejo da insuficiência respiratória pela enfermagem em UPA: práticas, desafios e cuidado humanizado. RECIMA21, v. 7, n. 2, 2026. DOI: 10.47820/recima21.v7i2.7318. O artigo foi publicado em acesso aberto sob licença CC-BY 4.0.



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